A contemporaneidade de Nora

SÃO PAULO – Considerado como um dos grandes representantes da dramaturgia realista, classificação que, porém, se revela reducionista em relação ao montante de sua produção, o norueguês Henrik Ibsen aborda, em Casa de Bonecas, o livre arbítrio feminino por meio do polêmico desfecho criado para sua protagonista, Nora Helmer: ao adquirir consciência de que seu matrimônio estável nada mais é que uma ilusória redoma de vidro, ela proclama sua independência e vai embora de casa afastando-se não apenas o marido como os filhos, numa jornada de autoconhecimento. O escândalo fez com que Ibsen escrevesse um outro final para Nora, bem mais conservador, no qual ela não rompe com o casamento. Mas a conclusão que entrou para a história foi a mais incômoda e é a partir dela que o americano Lucas Hnath elaborou Casa de Bonecas – Parte 2, imaginando o que teria ocorrido com Nora 15 anos depois de sair pelo mundo.
Na visão do autor, Nora se tornou uma mulher bem-sucedida, que assumiu as rédeas de uma carreira (de escritora) e da própria vida afetiva – utilizando, inclusive, as experiências pessoais como matéria-prima de trabalho. Durante esse período, não voltou para a antiga casa e só o faz agora diante da necessidade de formalizar o divórcio com o ex-marido, Torvald, ocasião que a leva a revê-lo e também a filha, Emmy, encontros intermediados pela governanta, Anne Marie. Essa nova Nora, portanto, reafirma os princípios que a fizeram tomar a atitude talvez drástica, mas bastante corajosa, ao final da peça de Ibsen.
A fidelidade a esse posicionamento é evidenciado no seu retorno – em especial, no embate com Emmy, quando se recusa a compactuar com uma farsa proposta pela filha. Nora não quer enveredar pela hipocrisia, deixar de encarar os acontecimentos de maneira frontal, negar as plataformas que a norteiam há 15 anos. Por meio de sua ação revolucionária, Nora abriu o caminho para Emmy, mesmo que esta não saiba. Contudo, a falta de uma conexão mais emocional de Nora com os filhos e o fato de haver renunciado ao convívio com eles (aqui, com a filha) ainda podem suscitar algum espanto no público atual, apesar da frieza demonstrada por ela não corresponder totalmente à realidade.
Nora é uma mulher à frente do seu tempo, levada a revisitar o seu passado. Não por acaso, a encenação de Regina Galdino, em cartaz no Tucarena, em São Paulo, propõe um acúmulo de tempos, particularmente perceptível num certo contraste entre a tradução coloquial de Marcos Daud e os figurinos austeros, belas criações de Theodoro Cochrane – responsável pela direção de arte do espetáculo, o que inclui a cenografia composta por um tapete com estampas sugestivas de ramificações, entrelaçamentos, flagrados por Hnath em momentos intensos dos personagens. Os conflitos são potencializados por uma iluminação ora aberta, ora concentrada, de Domingos Quintiliano.
Regina Galdino investe numa cena pautada pela valorização do texto e dos atores, sem espaço para dispersão. Conduz Marília Gabriela rumo à construção de uma Nora de gestos comedidos e voz firme no domínio da palavra, registro contido que a atriz sustenta com apreciável segurança. Luciano Chirolli e Clarissa Kiste têm o desafio de interpretar personagens que não anunciam, de início, exatamente o que sentem ou as verdadeiras intenções e ambos projetam – ele, a desestabilização de Torvald, ela, a pulsação algo passional de Emmy – essas curvaturas dramáticas com habilidade. Já Eliana Guttman fica encarregada de uma personagem que, ao contrário, adota um tom mais imediatamente contundente, mas a atriz acerta ao não tornar Anne Marie óbvia ou previsível no vigor enérgico graças ao preenchimento de sua presença em cena para além da entonação das falas.
Casa de Bonecas – Parte 2 parece assinalar mais uma confirmação do que uma mudança de percurso em relação ao ponto em que a trajetória da personagem foi interrompida por Ibsen na peça escrita em 1879. Por meio de elementos que constituem a encenação, Regina Galdino proporciona uma articulação entre passado e presente que realça a contribuição que essa protagonista à frente de seu instante histórico tem a fornecer aos dias de hoje.