Exuberância e síntese

Alexia Twister interpreta Rei Lear na encenação dirigida por Ines Bushatsky (Foto: Annelize Tozetto)
CURITIBA – Artistas drag queens interpretam os personagens de uma das principais tragédias de William Shakespeare – Rei Lear. Mas o foco da encenação dirigida por Ines Bushatsky, apresentada dentro da programação da Mostra Lucia Camargo no Festival de Curitiba, não reside numa leitura da peça a partir da abrangência da sexualidade ou simplesmente do sexo biológico – como fez Akira Kurosawa em Ran (1985) ao trocar as três filhas de Lear por filhos. A diretora parece propor uma articulação entre o mascaramento drag e a carga de verdade e mentira embutida numa manifestação artística como o teatro.
Diferentemente do ator que some por trás da personagem, os artistas drags surgem diante do público com maquiagem abundante (visagismo de Malonna e Polly), figurinos (de Salomé Abdala) repletos de cores e brilhos e presenças cênicas expansivas. São presenças mais explicitamente teatrais, o que não significa que sejam mais autênticas ou postiças que o ator “invisível” da cena naturalista voltada para a reprodução de uma fatia do cotidiano.
O teatro está no centro da cena através de seu símbolo mais tradicional: a cortina. A representação teatral é um ingrediente importante na dramaturgia de Shakespeare, valendo lembrar do seu uso como instrumento revelador da verdade em Hamlet. Já em tragédias do autor como Macbeth, Otelo e Rei Lear, há personagens que constantemente fingem (nesse sentido, representam) e inventam situações para alcançar seus objetivos.
As cortinas também são utilizadas de maneira sugestiva, a exemplo da queda delas ao final do espetáculo, sinalizando as mortes das filhas de Lear. Cabe assinalar, inclusive, um interessante contraste entre a escassez de elementos da montagem (cenografia de Fernando Passetti) – síntese que se perde um pouco no palco do Teatro Guairinha – e o intencional excesso estético do mundo drag. A encenação transita, de forma hábil, entre a intensidade e a discrição, variação que sobressai na iluminação de Aline Santini.
Em meio ao jogo de oposições que atravessa a montagem, é possível perceber ainda uma certa discrepância entre a tendência a uma abordagem histriônica da peça – a partir das liberdades em relação ao material original, flagrantes nas gírias e citações atuais (adaptação a cargo de João Mostazo) – e as oportunas contenção e sobriedade com que boa parte do elenco – composto por Alexia Twister, Antonia Pethit, DaCota Monteiro, Ginger Moon, Lilith Prexeva, Maldita Hammer, Mercedez Vulcão, Thelores, Xaniqua Laquisha – diz o texto.
No palco, o monarca Lear aparece esteticamente montado, mas com voz firme e contundente, própria de um personagem abalado por experiências trágicas e desestabilizadoras. Esse rigor, porém, não se mantém ao longo de toda a apresentação. À medida que Lear é destituído dos direitos e luxos até então garantidos pelo poder que exerce e envereda por jornada de enlouquecimento (ou de conquista da sanidade), o espetáculo dá vazão a uma paródia generalizada, que se estende por descartável sátira aos signos habituais do teatro contemporâneo. Em outros instantes, a desconstrução da atmosfera densa é mais bem-sucedida, a exemplo da inclusão da música It’s Raining Men, da dupla The Weather Girls.
As muitas referências ao pop ganham alguma perspectiva crítica, como na cena em que essa batida musical acompanha os discursos de Goneril e Regan, as filhas de Lear que afirmam, com hipocrisia, o suposto amor que sentem pelo pai. Em contrapartida, a fala sincera de Cordelia é marcada pela oscilação entre os extremos da ópera e do rock, diversidade que norteia a trilha sonora de Gabriel Edé.
Essa montagem de Rei Lear não se limita a destacar a exuberância estética e comportamental da drag queen. Insere-a, isto sim, numa cena despojada, com reduzidos – e ocasionalmente expressivos – recursos. Mesmo que o espetáculo ceda, em determinados momentos, a um humor de efeito mais imediato junto ao público, chama atenção o domínio da palavra evidenciado nas atuações de parte considerável do elenco.